Leandro Stein - 03/12/2011
Em qualquer lista com os nomes dos principais goleiros preparados na base dos clubes brasileiros, há um jogador cativo: Guido Andrade. Reconhecido por suas qualidades na posição, não à toa causou uma celeuma entre Vitória e Santos, depois que deixou a Salvador para vir ao litoral paulista. Já adaptado à Vila, acumulou ao longo deste ano títulos e premiações com o time sub-17. Mesmo às vésperas de realizar a transição aos juniores, não raro treina com os profissionais.
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Guido também era intocável na seleção brasileira, mas, por uma questão de saúde, acabou cortado do time que se preparava para o Sul-Americano Sub-17. Depois de constatada uma incompatibilidade para atuar na altitude, o jogador se submeteu ao controle médico e agora se concentra no trabalho para ganhar ainda mais espaço no Santos e, caso haja uma oportunidade, voltar à seleção.
Em entrevista ao Olheiros, Guido falou sobre sua chegada ao Peixe, as convocações à seleção e os próximos passos na carreira. Além disso, o goleiro também comenta suas inspirações na profissão e revela que também é um craque nos estudos, aprovado no vestibular em engenharia. Com desenvoltura nas respostas, demonstra que, além se preparar para ser um grande goleiro, também tem potencial para ser líder fora das quatro linhas.
Olheiros: O aproveitamento dos jogadores formados na base do Santos é evidente. Como você vê essa perspectiva para os goleiros? Como é o seu contato com o Rafael e o Vladimir, que passaram por essa transição e hoje estão nos profissionais?
Guido: Acho que os goleiros da base santista começaram a ter vez com Felipe e agora com Rafael e Vladimir. Foram muito bem preparados na base, assim como eu estou sendo. O contato com eles tem sido mais frequente, pois tenho sido chamado para treinar com a equipe principal. Aproveito ao máximo essas oportunidades e experiências com eles.
Olheiros: Qual sua impressão sobre o Victor Andrade e como vê toda a badalação em torno do garoto?
Guido: Conheci o Andrade há alguns anos, ainda no Vitória, em sua passagem rápida pelo clube, e já demonstrava muita habilidade. Percebo que ele evoluiu muito, é rápido e preciso nas finalizações. Apesar de ser um ano mais novo, nos ajudou muito no Campeonato Paulista Sub-17. É um bom garoto, com cabeça no lugar e focado, dono de grande talento. Tem tudo pra ser um grande profissional no futuro.
Olheiros: Muito se falou na época de sua saída do Vitória que o Santos agiu na surdina e que o clube baiano foi surpreendido com a situação. Hoje, um ano depois, como você vê esse episódio? Achas que foi benéfico para a sua carreira?
Guido: Antes desse período ocorreram situações internas que desagradaram muito a mim e a minha família, isso gerou muito desgaste e perda de confiança, que é um fator fundamental. Meu pai tratou diretamente da situação na época com os gestores da base, mas não se chegou a um acordo. O Vitória é um grande clube e a experiência lá foi fundamental, onde trabalhei com profissionais que ajudaram muito no meu desenvolvimento e aos quais sou muito grato. Toda mudança requer adaptação, surgem novos desafios e me identifiquei muito com o Santos. Aproveito para ganhar mais experiência, visibilidade e, sobretudo, disputar os campeonatos de base mais acirrados do Brasil, além da possibilidade de conhecer grandes nomes do futebol brasileiro.
Olheiros: Como foi o processo de mudança de Salvador para Santos e a adaptação à nova cidade com apenas 16 anos?
Guido: No começo foi um pouco estranho, pela idade e por ser a primeira vez que fui morar fora de casa, num alojamento com pessoas que eu nem conhecia. A saudade da família e dos amigos também apertou bastante, mas com o tempo consegui me adaptar e as frequentes visitas da minha família ajudaram muito. Outro fator muito importante foi continuar meus estudos e, como recompensa, este ano fui aprovado no vestibular em dois cursos de engenharia. Além disso, Santos é uma cidade praiana muito agradável e o povo hospitaleiro.
Olheiros: Quais os seus próximos objetivos no Santos? Existe a perspectiva de disputar a Copa São Paulo no começo do ano que vem?
Guido: O foco agora é ser brigar por uma vaga no time que viajará para o Campeonato Brasileiro Sub-20. Depois disso, pensar na possibilidade de disputar a Copa São Paulo, o que depende das atuações que tive no Paulista e de obter a confiança da comissão técnica do sub-20. É importante ganhar títulos e experiências nas divisões de base, porém, o mais importante é aperfeiçoar a técnica para um dia ser integrado ao time principal.
Olheiros: Como você avalia o desempenho da seleção sub-15 no Sul-Americano de 2009? Acha que a ausência do título pesou de alguma forma, contra aquele grupo de jogadores?
Guido: Foi um primeiro contato meu e da maioria daquele grupo, com uma competição daquele porte, importância e cobrança. Tivemos um bom desempenho, fomos invictos, terminamos com o vice e por muito pouco não alcançamos o título. Se tratando de Brasil, a ausência do título sempre pesa, mas sabíamos que tínhamos dado nosso melhor durante a competição.
Olheiros: O que te ajudou a ganhar a posição durante o Sul-Americano Sub-15?
Guido: A preparação técnica e física que recebi foi importante, mas preparação psicológica foi fundamental e de extrema importância para que eu ganhasse a posição.
Olheiros: Entre dezembro de 2009 e dezembro de 2010, a geração /94 da seleção foi treinada por quatro técnicos diferentes. Como os jogadores sentiram esse período de transição? Dava para perceber alguma diferença significativa na forma de trabalho entre um técnico e outro?
Guido: Foi um período incomum devido a tantas mudanças. Mas o grupo não deixou de trabalhar forte por isso. Cada treinador tem uma forma de trabalhar e o grupo precisa se adaptar aos diferentes estilos de trabalho, além de cada mudança requerer um certo tempo. Ainda assim, conquistamos três títulos importantes.
Olheiros: Muito se falou sobre o seu problema médico na altitude, mas, após o Mundial Sub-17, você jogou um torneio no México e foi eleito o melhor goleiro. Como foi essa situação e o que o departamento médico da CBF te informou após a realização dos exames antes do Sul-Americano?
Guido: Eu estava preparado e motivado para o Sul-Americano Sub-17, quando fui informado sobre o resultado dos exames e o motivo da dispensa. Fiquei surpreso por ter jogado pela seleção brasileira em duas ocasiões em altitudes acima do nível do mar. Em 2009, no Sul-Americano Sub-15, e em 2010, na Copa Chivas.
Olheiros: Como seu corpo reagiu durante a disputa desse torneio no México? Você sentiu algum problema ao longo da estadia no país?
Guido: Fui com o Santos para a Copa Independência, na Cidade do México, a 2400 metros, onde também foi realizado o Mundial da categoria. Não senti nada, nenhum problema em relação à altitude.
Olheiros: Como tem sido o seu acompanhamento médico após a constatação do problema?
Guido: Tive todo apoio do Santos e, junto com minha família, sou muito grato ao clube e ao departamento médico da base. Com as orientações, fiz novos exames em instituição médica especializada e acompanhamento de profissional com reconhecimento internacional, que nos tranquilizou em relação a essa situação. Entendo que o corte pela CBF, na época foi uma decisão por precaução e nos deu a oportunidade de identificar uma situação desconhecida. Não se trata de doença, mas sim de uma questão genética, que não vai interferir nas minhas atividades como atleta.
Olheiros: Você foi procurado alguma vez pela CBF após o corte no Sul-Americano? Como foi esse contato? Ainda havia expectativa de disputar o Mundial?
Guido: Depois do corte não recebi nenhum contato oficial da CBF. Eu tinha alguma expectativa, mas a prioridade naquele momento era termos a certeza de que tal situação poderia ser superada, me preparando para representar o clube e a seleção no futuro.
Olheiros: Como você vê a ida do Lucas Piazon, seu companheiro de seleção, para a Europa antes mesmo de chegar aos profissionais? Como você observa o mercado para goleiros brasileiros no exterior?
Guido: A busca de clubes estrangeiros pelo futebol é fruto do talento dele e do trabalho que fez durante as competições que disputou, ele tem todo o mérito por isso. Em relação ao mercado de goleiros, tenho observado que, no Brasil, a ênfase aos goleiros tem aumentado. Temos grandes profissionais na preparação e recebendo mais importância do que antes. Isso tem feito novos nomes surgirem, aumentado o número de transferências na posição.
Olheiros: Qual a sua atuação mais marcante com a camisa da seleção? E com a do Santos?
Guido: Pela seleção, foi na MIC 2010, na qual fomos campeões. Defendi um pênalti na semifinal e dois na final, contra o Barcelona, após empate no tempo regulamentar. Pelo Santos, disputei neste ano Copa 2 de Julho e a Copa Independência, sendo eleito o melhor goleiro em ambas.
Olheiros: Quais goleiros que te inspiram?
Guido: O Taffarel, o Casillas, o Júlio César (Internazionale) e o Van der Sar são goleiros que já marcaram a história do futebol. Quanto aos goleiros que atuam hoje no Brasil, eu me inspiro no Rafael e no Júlio César (Corinthians).
Olheiros: Qual o seu ponto forte como goleiro? E o que ainda precisa aperfeiçoar?
Guido: É difícil fazer uma auto-avaliação, porque é uma posição de muita responsabilidade e cobrança. Temos que estar sempre aprimorando os fundamentos de reposição com as mãos e pés, saídas do gol em bolas altas e rasteiras. Também é muito importante a comunicação com os companheiros e aperfeiçoamento constante das técnicas.
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