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A lição de Yokohama

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Lincoln Chaves - 19/12/2011

Na coletiva que concedeu após a incontestável vitória por 4 a 0 de seu Barcelona sobre o Santos, que rendeu aos blaugranas a conquista do Mundial de Clubes, o técnico Pep Guardiola respondeu com precisão a uma pergunta sobre o estilo de jogo característico desse time que já é um dos maiores em todos os tempos: "O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós".

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De fato ao longo de muitos anos, o toque de bola foi "nossa escola" – como diz o famoso jingle da Globo na Copa do Mundo. Toque de bola aliado à qualidade individual ainda presente nos atletas que surgem Brasil afora. No entanto, e o Barcelona de Guardiola fez questão de mostrar no domingo, a "escola brasileira" está mudada. E o que mais chama atenção: ainda sem exatamente um padrão de jogo, seja nas seleções de base, seja entre nas equipes de formação dos clubes.

O Barcelona tem um padrão de jogo, que não só se estendeu para todos os escalões inferiores do clube, mas também para todas as seleções espanholas de base. O caso blaugrana é especial, como evidenciou uma declaração interessante do presidente Sandro Rosell: de que há cerca de 30 anos, houve a decisão em fazer do clube uma "fábrica" de jogadores para o elenco principal, para que os resultados não mais dependessem de contratações milionárias.

Nesse "projeto", não constava apenas formar os melhores jogadores, mas fazer com que estes tivessem um padrão de jogo do início ao fim (profissional). Trata-se, naturalmente, de algo que não acontece de uma hora para outra, em um, dois anos. Claro que depois de um tempo, começa-se a ter certa excelência naquele trabalho e os resultados, inicialmente singelos ou pontuais, tornam-se mais constantes. Para chegar ao atual estágio, o processo é muito mais lento.

Chegamos aí, então, a um diferencial brutal do Barcelona em relação aos clubes brasileiros: houve ciência da necessidade de um projeto de longo prazo, e não foram eventuais insucessos ou incertezas que alteraram o cerne do trabalho das canteras. É verdade que de 30 anos para cá, o Barça não deixou de contratar astros – e nem sempre acertava a mão, o que é bem natural. Aos poucos, contudo, isso deixou de ser uma constante, e jogadores badalados que não se enquadrassem na filosofia, por melhores que fossem, passaram a rodar.

No Brasil, porém, a coisa é diferente. Apesar de o discurso dos clubes ser o de "antes formar, depois ganhar", ainda há uma necessidade em se conquistar títulos para ser possível dar sequência de um trabalho. Além disso, o que se observa é, por vezes, uma busca incessante dos clubes quase que unicamente por jogadores capazes de definir um jogo em um drible. São importantes? Claro! Mas será que é só desse tipo de atleta que uma equipe precisa ter para ser posteriormente puxado para o time de cima? Será que peças de características mais coletivas, capazes de se adequar ao time e assim serem úteis, também não são relevantes?

Há ainda outro fator a ser atentado. Se um dia Guardiola sair do comando do Barcelona, seu substituto fatalmente dará sequência ao "tiki-taka". Não só porque é o padrão de jogo "que deu certo na gestão anterior", mas porque é assim que atuam os talentosos meninos que ocuparão os lugares de Xavi Hernández, Lionel Messi, Andrés Iniesta ou Sérgio Busquets. O estilo formado pelo clube pauta o estilo que a equipe principal seguirá (ou deverá seguir). Trata-se de uma mentalidade já afirmada.

No Brasil, há uma rotatividade elevada de treinadores, que por vezes não duram mais que três derrotas consecutivas no cargo – e que até quando estão na liderança de um campeonato são ameaçados de demissão. Treinadores na maioria das oportunidades extremamente supervalorizados, que se lixam para as características do elenco que possuem ou dos meninos que estão nas categorias de base para impor seus estilos (?) de jogo, mesmo que faltem as peças certas para o sistema funcionar.

Em outras palavras: se em janeiro o time A tem um técnico que prefere ver seus atletas jogando na ligação direta, em março chega um novo treinador que tem o jogo aéreo como estilo predileto. E três meses depois, vem um terceiro nome, este apreciador de um toque de bola mais paciente. Se essa falta de sequência e regularidade é ruim para quem já está no elenco principal, que dirá para quem pretende desenvolver um trabalho de formação de longo prazo?

Em nível de seleção, a situação não é muito diferente. Espanha e Alemanha são dois exemplos cruciais de trabalhos extensos com suas seleções de formação, que vêm tendo reflexo tanto nos times menores (que vêm conquistando vários títulos europeus) como na equipe principal. Em 2010, após a eliminação para a Holanda na Copa, veio a conclusão de que eram necessárias reformulações gerais nas seleções brasileiras de base, com a busca de um padrão de jogo uníssono do sub-15 ao time dirigido por Mano Menezes.

E os exemplos de Espanha, Alemanha e Barcelona são justamente o que obrigam uma avaliação bastante cautelosa sobre o estágio das seleções de base brasileiras. É verdade que 2011 foi um ano muito positivo, com três títulos continentais, um Mundial Sub-20 e a confirmação da vaga olímpica para 2012. Mas foi apenas o primeiro passo de um trabalho que, sabe-se, será bastante longo e com desafios ainda maiores a Ney Franco. O primeiro deles será a manutenção do trabalho e de um padrão de jogo - que ainda se está procurando – em caso de adversidades (leia-se falta de títulos).

Mas ainda há tempo, e pode-se dizer que há perspectivas positivas. Há questão de uma década, categoria de base ainda era sinônimo de gasto de dinheiro. A fortuita geração de Diego e Robinho, que conduziu o Santos ao título brasileiro, acendeu a luz de todos para a necessidade de se atentar à formação. E de lá para cá, ainda que bem aos poucos, começou-se uma reformulação gradual do trabalho de base dos clubes. O equilíbrio entre as equipes sub-15 do País e a boa safra /96, que brilhou no Sul-Americano da categoria, são os primeiros sinais de que os primeiros resultados começam a aparecer.

O desafio, porém, é o de dar sequência a esse trabalho. Não só por quatro, cinco anos, mas por 10, 11 anos. O que passa por uma mentalidade que não pode ser limitada às categorias de base, mas também chegar ao profissional, passando pelo fim dos "superpoderes" aos treinadores e à possibilidade de se traçarem projetos de longo prazo envolvendo todas as frentes do clube. Se Neymar, Ganso e companhia deixaram o gramado de Yokohama dizendo terem tido uma aula dentro de campo, quem sabe a exibição deste domingo não sirva também como um ensinamento ao próprio Brasil.

Fotos: Leandro Amaral (capa e Guardiola), Arquivo Jornal A Tribuna (Diego e Robinho)



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