Lincoln Chaves - 03/01/2012
Em 2009, com apenas 16 anos, Neymar já era o centro das atenções daquela Copa São Paulo. Ao longo da competição, o hoje melhor jogador das Américas não esteve brilhante, mas foi o destaque do Santos e, mesmo com o time caindo nas oitavas de final em um equilibrado confronto com o Cruzeiro de Bernardo, deixou a Copinha valorizado junto ao Peixe. Precisou de algumas semanas para ser integrado à equipe que não engrenava no Campeonato Paulista e, ao lado de Paulo Henrique Ganso, capitanear o alvinegro praiano rumo à decisão. Um ano depois, tornou-se a principal referência do time que se sagraria campeão estadual e da Copa do Brasil, além de virar nome amplamente pedido para a seleção na Copa do Mundo.
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Dois anos depois, começa-se a desenhar um cenário semelhante ao vivido por Neymar na Copinha, dessa vez com o mais recente candidato a craque da Vila Belmiro, o atacante Victor Andrade. Também aos 16 anos, o sergipano de Aracajú é aquele que será mais observado pelas câmeras e pelos torcedores quando o Santos estiver em campo. E assim como foi com Neymar, mais pelo que dizem que ele é capaz de fazer do que pelo que já foi feito. Uma atenção justificada pelo contrato por ele assinado em 2011, seu primeiro como profissional, no qual se estipulou uma multa rescisória de 50 milhões de euros – que supera a do próprio Neymar (levando em conta a multa prevista na antiga ligação do atacante).
Contudo, mais do que o estilo de jogo semelhante, o que chama atenção é que Victor vem sendo conduzido para dar os mesmos passos de Neymar: leia-se ser o astro alvinegro na Copinha e rumar direto ao time profissional. No Santos, o discurso sobre a promoção do sergipano ainda é oficioso. No entanto, como o contrato assinado pelo atacante no ano passado veio acompanhado de um plano de carreira em moldes semelhantes ao de Neymar – e levando em conta as declarações recentes de Muricy Ramalho, sobre a intenção de levar um dos meninos do elenco vice-campeão paulista sub-17 em 2011, após já ter elogiado o garoto - parece claro que o sergipano é mesmo a bola da vez para o desenrolar do Paulistão.
Claro, nem tudo são semelhanças, e aí é que, pode-se dizer, o talento e o potencial de Victor serão “testados”. O atual camisa 11 do Santos, por exemplo, já tinha uma Copinha no currículo (entrou em alguns jogos na edição de 2008, fazendo inclusive um gol) quando liderou o Peixe em 2009, enquanto Victor terá sua primeira experiência na competição. Também é fato que Neymar era indiscutível na equipe inicial há dois anos, enquanto o atacante sergipano só assumiu efetivamente um posto no onze inicial devido à lesão do xará Vitor Hugo durante o Brasileiro Sub-20. Apesar de artilheiro alvinegro no Estadual Sub-17 com 13 gols, Victor Andrade não foi exatamente titular ao longo do último ano.
O desafio continuará na sequência da temporada. A começar pela idade de ambos, já que Victor só completará 17 anos em setembro – Neymar atingira essa idade sete meses antes. Além disso, se o treinador santista em 2009 era Vagner Mancini, técnico que não se furta a apostar em jovens talentos se necessário, agora o Santos é dirigido por Muricy Ramalho, conhecido justamente pelo oposto. Um exemplo recente é que o bom lateral /92 Crystian foi preterido pelo fraco e já dispensado Leandro Silva até no "time reserva" testado nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro – um desperdício. A julgar pelo histórico de Muricy e pelo próprio elenco, não seria estranho ver Victor "cedido" ao time sub-20 ao longo do ano – o que nem seria de todo ruim, dependendo da circunstância.
Por fim, há de se considerar as situações nas quais Neymar estreou entre os profissionais e o provável cenário que Victor encontrará depois da Copa São Paulo. O primeiro debutou em um momento "morno" do time santista, que brigava por vaga nas semifinais do Paulistão daquele ano mas ainda rendia grandes receios aos torcedores, que já haviam sofrido em 2008 com uma briga constante contra o rebaixamento no Brasileirão. Além disso, não se pode dizer que o elenco alvinegro possuía lá muitas opções para o ataque, o que de certa forma colaborou para que, emplacando uma série de atuações muito boas – muitas acima da média de um menino de 17 anos – Neymar se tornasse titular quase intocável.
Victor, por sua vez, terá um ambiente que pode ser de calmaria ou de relativa pressão. Calmaria caso o Peixe, até sua provável estreia, mantenha-se tranquilo na briga por uma vaga na fase final, o que deve "facilitar" o primeiro contato do atacante com essa realidade. Pressão se os "reservas" não derem conta e se a imagem deixada por Neymar em 2009 – o jogador, mesmo muito jovem, foi decisivo para a ascensão do Santos no Estadual – lhe fizer sombra. Sabe-se bem o quão exigente é o santista com suas promessas, especialmente quando elas aparecem logo após a uma safra de sucesso. Até Neymar, os meninos pós-Robinho – por mais que não passassem perto do talento do camisa 11 alvinegro - sofreram para se firmar.
Por agora, será interessante ver se em uma competição de base dessa magnitude e com tantos holofotes em si, Victor manterá o futebol que encantou o Santos em 2007 e se terá "cabeça" para conduzir tecnicamente um time com meninos até dois anos mais velhos – alguns até em sua segunda Copinha. Vale lembrar que, em 2009, Neymar não brilhou na Copa São Paulo, mas mostrou outros predicados que o levaram ao time de cima. Até por isso, não é esse torneio ou esse ano que irão determinar o futuro do sergipano. Claro que Victor pode até repetir o que fez Neymar dois anos atrás. Mas se não o fizer, não há problema. O próprio Ganso só se firmou aos 20 anos, após ser duas vezes "devolvido" ao sub-20. Há muito tempo pela frente.
Fotos: Capa (Divulgação/Santos FC), Neymar (Reprodução) e Victor Andrade (Divulgação/Twitter)
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