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Nova cara aos Peixinhos

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Lincoln Chaves - 17/01/2012

Após a goleada aplicada pelo Barcelona ao Santos, na decisão do Mundial de Clubes, esta coluna refletiu sobre a necessidade de os clubes brasileiros reverem seus conceitos quanto à forma como lidam com a base, em especial com o entendimento de que era necessário fazer com que os times das categorias inferiores adotassem um padrão de jogo que pudesse ser "revertido" à equipe profissional. Isso não significa que todos devessem virar "cópias" do Barça — ou seja, atuar necessariamente no toque de bola veloz e paciente — mas que se buscasse um padrão que se adequasse às características daquele time, inclusive tendo em vista a tradição dos mesmos, algo muito valorizado por suas torcidas.

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Vítima dos catalães, o próprio Peixe assumiu esse discurso, através de seu presidente, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, em entrevista coletiva concedida na primeira semana do ano. E já na Copa São Paulo deste ano, tem sido possível observar os primeiros lampejos da "reformulação" pretendida pelo mandatário santista. Atuando em conjunto e apostando em um time predominantemente técnico (mas homogêneo) nos três setores do campo — característica essa tida como "histórica" nos grandes times alvinegros —, com modificações determinantes em relação à equipe que era esperada para o torneio, o Santos tem sido uma das melhores equipes (quiçá a mais regular e ascendente) da edição 2012 do torneio.

O setor em que se nota um Santos diferente do "habitual" — inclusive tendo em vista outros times da Copinha — é o meio-campo, que não conta com nenhum volante de origem. Leandrinho e Lucas Otávio, que têm exercido esse papel "simbólico" em campo, são na verdade meias que tem exercido uma função que mais se aproxima a de um segundo volante do que a de um camisa 5. Donos de boa qualidade na saída de jogo, ambos têm sido importantes para que Bruno Lamas e principalmente Pedro Castro possam atuar mais perto de Victor Andrade e Neílton. E apesar da formação ofensiva, que já rende ao Peixe a significativa média de 4 gols/jogo até o momento, a equipe é uma das únicas que ainda não sofreu gols.

Parte desse sucesso defensivo (ainda que se deva pesar o fato do Santos não ter encarado nenhum rival de qualidade parelha) passa pela marcação que tem sido aplicada já no campo de defesa do adversário — estratégia essa que o Barcelona utiliza e que o próprio Peixe pecou em não adotar em nenhum momento na partida contra os catalães, permitindo que desde a zaga o time espanhol já começasse a tocar a bola. Outro ponto relevante é a presença de dois zagueiros quem sabem sair jogando com os pés, sem apelar para chutões. Além de altos e fortes no jogo aéreo, Gustavo Henrique e Jubal dificilmente arriscam bolas muito longas e, em alguns casos, até avançam perto do círculo central para facilitar o serviço dos meias.

Em tese, não era para esse Santos jogar assim. A tendência era que se mandasse a campo um time "tradicional", com dois volantes de características marcadoras e uma zaga menos técnica e mais "dura", tendo o hoje reserva Wallace como uma espécie de"xerife". No entanto, as primeiras novidades apareceram já no Brasileiro Sub-20. Na ocasião, o técnico Claudinei Oliveira apostou em apenas um volante de contenção e confiou a Leandrinho o papel simultâneo de meia e segundo homem da volância. Já para a Copa SP, Claudinei trocou a marcação pesada pelo dinamismo de Lucas Otávio, para dar sustentação à defesa e ao ataque. A equipe antes mais compacta tornou-se predominantemente ofensiva.

Segundo o treinador, a mudança na forma do time começou a ser planejada em uma reunião com a gerência da base do clube no fim de novembro/começo de dezembro, em que se constatou a necessidade das equipes de formação priorizarem a formação de elencos leves, técnicos e ofensivos. Um "projeto" que ganhou força com a derrota para o Barcelona e motivou o discurso de Luís Álvaro no começo do ano. O próprio Claudinei admite que, antes da Copinha, havia uma preocupação sobre como a molecada iria se adaptar — e se iria se adaptar — à mudança. "Achamos que os meninos teriam mais dificuldade para incorporar a mudança na forma de jogar, mas eles assimilaram logo. Isso nos surpreendeu", comentou.

É claro que ainda há muita lenha para queimar e que a Copinha é um "laboratório" do que se estuda aplicar do sub-11 ao sub-20. O famigerado Barcelona por exemplo, levou anos para que o "tiki-taka" virasse um mantra a ponto de qualquer treinador que assuma o time profissional saber que ele é que terá de se adaptar ao elenco e não o contrário — como muito ocorre no Brasil. Não se pode esperar, por exemplo, que a equipe dirigida por Muricy Ramalho — que por vezes chega a atuar com três volantes (dois deles de origem) e que, com exceção de Neymar e Paulo Henrique Ganso, não prima exatamente pela técnica — mude da água para o vinho, até tendo em vista o histórico dos times de Muricy.

A iniciativa santista de se buscar um padrão de jogo próximo à tradição das equipes vitoriosas do clube é importante, desde que se configure como um processo contínuo e que a já conhecida rotina dos times brasileiros em se demitir profissionais da base pela simples ausência de títulos ganhe um ponto final — a recordar, por exemplo, da saída até agora pouco explicada de Narciso, após a eliminação da Copa São Paulo do ano passado. Deve-se ter a consciência de que o trabalho é de longo prazo — e inclusive de que uma eventual conquista da Copinha não pode acelerar as coisas. "Sem querer", o Santos reacendeu os olhares do futebol brasileiro para a base em 2002. Agora, "querendo", pode fazer o mesmo.

Fotos: Vinícius Vieira/Divulgação Santos FC (Leandrinho) e Mario Roberto/Divulgação Santos FC (Capa)



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